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Seu casamento pode não existir no Brasil

  • Foto do escritor: CAMILA GOUVEIA
    CAMILA GOUVEIA
  • 27 de mar.
  • 3 min de leitura

Você casou fora do Brasil, fez tudo certo no país onde mora, tem certidão, tem foto, tem memória e acha que está tudo resolvido.


Contudo, para o Brasil, esse casamento pode simplesmente não existir, juridicamente falando.


Essa é uma das situações mais comuns que acompanho no meu trabalho com brasileiros que vivem no exterior. E o mais delicado é que a maioria só descobre o problema quando mais precisa: na hora de dar entrada em um inventário, regularizar um imóvel, tirar passaporte para um filho ou resolver qualquer questão que exija comprovação do estado civil no Brasil.


O que é a transcrição de casamento e por que ela importa?


Quando um brasileiro casa fora do país, esse casamento precisa ser registrado também no Brasil, em um cartório de registro civil, para que produza efeitos jurídicos no Brasil. Esse processo se chama transcrição de casamento.


Sem ele, para o direito brasileiro, você continua solteiro.


Isso tem consequências práticas e reais:


• Herança: o cônjuge pode não ter direito à meação em caso de falecimento;

• Imóveis: a compra ou venda de um bem no Brasil pode ser complicada pelo estado civil desatualizado;

• Filhos: podem surgir dificuldades práticas em determinados registros ou comprovações, especialmente em contextos internacionais;

• Benefícios previdenciários: o INSS e outros órgãos exigem comprovação do vínculo conjugal válido no Brasil.


"Mas faz anos que casamos, por que nunca ninguém nos avisou?"


Essa é a pergunta que ouço com mais frequência.


A resposta é simples: ninguém te avisa porque a responsabilidade é sua. O Estado brasileiro não vai bater na sua porta para lembrar que seu casamento precisa ser transcrito. O consulado processa os documentos apresentados, mas nem sempre orienta sobre etapas que ainda não foram iniciadas.


A lacuna existe e ela se acumula silenciosamente ao longo dos anos.


Como funciona a transcrição?


O processo pode ser feito diretamente no Brasil, mas depende de algumas diligências via consulado. Envolve autenticação e tradução dos documentos, apostilamento e o envio ao cartório competente.


Parece simples, mas, na prática, cada caso tem suas particularidades: o país onde o casamento foi realizado, o regime de bens escolhido, se houve divórcio anterior de um dos cônjuges e outros fatores que podem tornar o processo mais ou menos complexo.


Já atendi casais que casaram há mais de 15 anos e nunca fizeram a transcrição. Outros que tentaram fazer sozinhos, erraram em algum passo, tornando o processo muito mais custoso e burocrático.


O risco de deixar para depois


Adiar a regularização não é neutro. Quanto mais o tempo passa, mais situações se acumulam que dependem desse registro e mais difícil fica resolver tudo de uma vez.


Além disso, em caso de falecimento de um dos cônjuges, a dificuldade aumenta exponencialmente. O que poderia ser resolvido de forma simples em vida pode se tornar um processo judicial longo e custoso.


Cada caso tem sua solução. Se você casou fora do Brasil e nunca fez a transcrição, vale entender qual é sua situação específica antes que ela vire um problema maior. Não se trata de alarme, mas de evitar um problema que, quando aparece, costuma vir no pior momento.


Escrito por:


Camila Gouveia – Advogada brasileira e portuguesa


Mestranda em Direito Civil pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Especialista em Direito, Logística e Negócios Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (2014). Pós-graduada em Direito Aplicado pela Escola da Magistratura do Paraná (2014) e graduada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (2011).

Advogada com mais de 12 anos de experiência, com foco na regularização de documentos de brasileiros que vivem no exterior.

Atua em demandas de Direito de Família e Sucessões, especialmente em transcrição de casamento no Brasil, homologação de sentença estrangeira, regularização de estado civil, assessoria consular, vistos e nacionalidade.

 
 
 

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